Quinta-feira, Abril 30, 2009


FIVE MINUTES OF HEAVEN - 2009

Diretor: Oliver Hirschbiegel

Elenco: Liam Neeson, James Nesbitt, Juliet Crawford, AnaMaria Marinca, Conor MacNeill, Barry McEvoy, Mark David.

Surpreendendo no último festival de Sundance, acontecido em Janeiro desse ano, o novo filme do alemão Oliver Hirschbiegel, Five Minutes of Heaven, é uma obra contundente e intimista, que mergulha no interior do ser humano, a fim de observar o que acontece quando trazemos à tona um passado traumático para o presente e temos que enfrentá-lo cara a cara. Lendo apenas a sinopse, esperava outro tipo de filme, algo relacionado aos conflitos da Irlanda do Norte nos anos 70 e a consequência desses atos de violência em jovens. Porém, descobri, felizmente, que não se trata apenas disso. Com apenas 1 hora e 26 minutos de duração, Hirschbiegel nos entrega um filme rico o bastante para discutirmos sobre os diversos temas retratados, com atuações poderosas e um roteiro muito bem elaborado por Guy Hibbert.

Vencedor de dois prêmios no festival supracitado (Direção e Roteiro), além de indicado ao Grande Júri, é mais um acerto na carreira de Hirschbiegel, demonstrando que não precisa mais provar nada quanto ao seu talento. Diretor de obras fortes, como o interessantíssimo "A Experiência" e o chocante "A Queda: As Últimas Horas de Hitler", o alemão dirigiu seu filme hollywoodiano, Os Invasores, quarta versão cinematográfica da obra de Jack Finney, mas teve sua liberdade limitada, não tendo controle total sobre a obra, amargando um fracasso de bilheteria. Culpa dos Irmãos Wachowski, James McTeigue ou Joel Silver, intrometidos diretamente no longa-metragem? Não sei, já que não conferi o filme ainda, mas, situando seu novo trabalho na Irlanda do Norte e sem nenhuma interferência, o diretor sabe muito bem o que faz e aplica os recursos disponíveis sabiamente.

Os conflitos violentos ocorridos em Belfast, comandados em parte pelo IRA e por outros grupos radicais, como a Força Voluntária do Ulster (UVF, em inglês), já foram retratados em vários filmes, geralmente de altíssima categoria, como Domingo Sangrento, de Paul Greengrass, Hunger, de Steve McQueen ou Em Nome do Pai, de Jim Sheridan. São embates complicados de se entender, com envolvimento de política e religião e até ocorreu um tratado de paz em 1998 (Acordo de Sexta-Feira Santa), diminuindo bastante os atos de anarquia na região, mas esses acontecimentos não devem ser esquecidos e o cinema faz sua parte, ao tratar de temas tão intrincados e difíceis de lidar, de uma forma humana, como acontece com Five Minutes of Heaven e com o recente Hunger.


No entanto, como já falei, o longa não se resume a isso, usando esse tema mais como um impulsionador dos atos dos personagens principais, regendo toda a vida desses seres humanos, ligados por atos de violência. O filme tem início no ano de 1975, na cidade irlandesa Lurgan. Alistair Little (Mark David) é um adolescente que quer chamar atenção, atitude típica dos jovens nesse período da vida. Quer que todos o admirem, respeitem e o idolatrem. E a única forma de conseguir isso nessa época é através do derramamento de sangue. Logo, o jovem Alistair, juntamente com alguns amigos, planejam um assassinato, condição para conseguirem o respeito de um membro de uma gangue que é contra a ocupação de católicos na cidade, algo como um rito de iniciação à Força Voluntária do Ulster. No entanto, quando vai praticar o delito (Matar um católico), o pequeno Joe Griffen, irmão da vítima, está do lado de fora e presencia o assassinato do ente querido, este alvejado por três disparos efetuados a sangue frio por Alistair.

Presenciando a morte do irmão e detestado pela sua mãe, já que esta o acusa injustamente de não ter feito nada a respeito e tratá-lo como culpado pela morte do filho mais velho, Joe Griffen cresce com um imenso trauma e um desejo de vingança incontrolável. 33 anos mais tarde, uma emissora de TV planeja levar ao ar um programa que mostre vítimas da violência ocorrida na Irlanda do Norte, pessoas reais que sofreram por esses atos irracionais. Alistair (Interpretado agora por Liam Neeson) é agora um pacifista, tendo cumprido pena pelo assassinato do irmão de Joe e é um dos convidados do programa, para explicar os eventos de que participou e uma tentativa de obter uma reconciliação. A parte mais difícil está relacionada à outra parte: O próprio Joe Griffen (Interpretado por James Nesbitt), que também é convidado para comparecer ao vivo a fim de tentar conversar com Alistair.

Visivelmente deprimido, ansioso e fumante inveterado, Joe não sabe como agir diante de tal situação amedrontadora: Estar face a face da pessoa que causou tanto mal a seus familiares e a ele próprio e tentar conversar pacificamente com ele. Oliver Hirschbiegel cria essa bomba-relógio prestes a explodir a qualquer momento e nunca opta pelo final fácil, pela previsibilidade, deixando-nos atentos e tensos até o final do filme, estudando o comportamento do ser humano diante de um acontecimento psicologicamente tão brutal como esse. O título do filme é encaixado com perfeição. Alistair em sua juventude queria os seus "cinco minutos de paraíso", um reconhecimento através da violência, mas transformou-o em um sujeito solitário ao longo do tempo e carregou um fardo durante toda sua vida adulta: A imagem do garotinho Joe, assustado ao ver um ato de crueldade. Enquanto isso, Joe Griffen quer se livrar do seu trauma e confrontar violentamente o seu algoz. Foi marcado durante toda sua vida, virando um sujeito depressivo e sem vontade de viver, querendo agora seus "cinco minutos de paraíso" diante de todo o inferno interior de sua existência.

Além da história fortíssima e muito bem conduzida pelo diretor, outro ponto chave no filme é o quesito atuação. James Nesbitt, que também fora um dos envolvidos no elenco de Domingo Sangrento, entrega uma atuação assustadoramente competente, dando tudo de si ao personagem, em um trabalho digno de aplausos. E se o ver indicado na próxima edição, ainda longínqua, do Globo de Ouro ou Oscar, na categoria de Melhor ator coadjuvante, não vou estranhar nada. Liam Neeson também mostra o seu habitual ótimo trabalho, interpretando um sujeito de olhar sempre triste e arrependido. Porém, Nesbitt rouba todas as cenas em que aparece, em todos os diálogos, sendo uma das grandes interpretações de 2009 até o momento.

Five Minutes of Heaven é um trabalho magnífico, de um diretor altamente competente. Uma história anti-violência, mesclando vingança, ressentimentos, busca de uma redenção e uma dolorosa reconciliação. Espero ainda ver muitas premiações, merecedoras, para esse pequeno grande filme. Altamente recomendado, para os admiradores do bom cinema e para quem quer saber mais sobre esses terríveis eventos que se transformaram em uma ferida na história dos britânicos e irlandeses.

NOTA: 9.0/10.0

11 comentários:

Louis Vidovix disse...

Jura que é tudo isso? Bom, vai pra lista de filmes a ver! Abraço!

Ramon disse...

Legal! Gostei da nota. Fiquei empolgado para conferir a obra.

Abs!

Jeniss Walker disse...

a critica anima bastante. ja no aguardo para o filme. abraço :)

Ibertson Medeiros disse...

Louis - É um filme muito bom mesmo. Já queria vê-lo por ter gostado dos outros filmes do diretor e foi muito satisfatório. E James Nesbitt tem que ter uma indicação no próximo Oscar, se bem que ainda é cedo.

Hugo disse...

Não havia lido sobre este filme ainda, mas fiquei muito interessado.

O tema já gerou ótimos filmes como vc citou.

Hirschbiegel fez ótimos filmes na Alemanha.

E a dupla central é ótima. James Nesbitt é pouco conhecido por aqui, mas já mostrou talento em "Domingo Sangrento"

Abraço

Kamila disse...

Ainda não tinha ouvido falar neste filme, mas o texto me deixou intrigadíssima. Gosto do Oliver Hirschbiegel e do Liam Neeson e, com certeza, a obra já está na listinha de filmes para se assistir.

Vinícius P. disse...

Apesar de "Invasores" ter sido muito criticado, acho que ele fica no mesmo nível que "A Queda" entre os longas do Oliver Hirschbiegel - não que algum dos dois tenha chamado minha atenção em particular. Fiquei mais interessado nesse após seus comentários.

Wally disse...

Olha, eu sabia que o Oliver que eu conhecia - o de excelente "A Queda" - não era aquele de "Invasores", que foi ferrado pelos produtores...

Ciao!

Alyson Xyzyx disse...

Aqui pelo "Cinema para todos" conhecemos boas obras que infelizmente não são muito bem divulgadas e eu adoro isso, pois admiro o cinema desconhecido. Ta anotado. Valeu Ib.

Abraços!

Francisco Brito disse...

Gostei mt do texto e o enredo do filme me interessou demais. Gosto mt de histórias sobre culpa e redenção.
Quero em breve ver.

Felipe Santiago disse...

Olá Ibertson ,

fiz um site colaborativo sobre cinema e o diferencial é que os proprios usuários cadastrarm os filmes e podem votar e comentar sobre eles.

como tambem gosto de cinema, acompanho seu blog e gostaria de saber se você tem interesse em ser um dos moderadores do site e ser top critic.

Funciona da seguinte forma: você terá uma senha onde poderá aprovar os filmes cadastrados pelos usuarios, é só verificar se os dados estão corretos e aprovar para entrar no ar, e estamos terminando de desenvolver a área Top Critic, onde o seu voto terá peso 3 na média geral.

O site se chama OvoPodre, por que? quando a média da votação dos usuarios é abaixo de 60% eles "jogam" um OvoPodre, se for acima de 60% e abaixo de 90% é Ovo do Bom!, se for acima de 90% é Ovo de Ouro.

o endereço do site: http//www.ovopodre.com.br

caso seja do seu interesse fico no aguardo do seu retorno.

meu e-mail: jsfelipe@gmail.com

att,

Felipe Santiago
OvoPodre