Terça-feira, Junho 30, 2009

800 Balas (2002)

Diretor: Aléx de la Iglesia

Elenco: Sancho Gracia, Ángel de Andrés López, Carmen Maura, Luis Castro, Yoima Valdés, Manuel Tallafé, Eduardo Gomés, Enrique Martínez.


Estava na locadora procurando algum filme e fui então para a seção de faroestes, pois procurava o filme Lone Star: Estrela Solitária e já tinha visto ele por lá. Analisando as capas dos DVDs, um a um, uma surpresa: 800 Balas, do Aléx de la Iglesia, estava lá e não sabia que tinha por aqui. Como já estava querendo conferir outro filme do diretor espanhol, onde os três filmes anteriores que vi dele foram todos acima da média (Fiz um especial sobre ele aqui no blog, só clicar no marcador "Aléx de la Iglesia" ao lado), não pensei duas vezes em locá-lo. Iglesia é um diretor muito versátil, mudando de um gênero para outro facilmente e tendo resultados altamente satisfatórios. Com a ajuda do seu fiel colaborador, o roteirista Jorge Guerricaechevarría e possuindo um dom para comandar um filme sabiamente com poucos recursos, o diretor se transformou em cult e toda obra que se envolve agora é motivo de expectativa para os cinéfilos.

Com o filme que comento agora também não foi diferente: Com um roteiro exemplar, atuações divertidas de todo o elenco e mais uma vez a demonstração de talento do diretor na condução das cenas de ação e na escolha da trilha sonora, 800 Balas é uma honesta homenagem aos westerns e uma demonstração de amor ao cinema, homenageando também envolvidos nos longa-metragens que geralmente são esquecidos, mas fazem seu trabalho perigoso com garra e paixão: Os dublês, onde pudemos também notar esse tema no recente e esquecido Dublê de Anjo (The Fall), do Tarsem Singh.

Como acontece também no começo do filme do Tarsem, 800 Balas inicia com um acidente durante as gravações de um filme, onde o diretor usa aqui a técnica da metalinguagem e pensamos, no começo, que se trata de uma cena normal do longa-metragem, mas na verdade é um filme dentro do filme, somente para mostrar um fato que terá grande importância na trama. Corta então para os créditos iniciais, muito bem realizados, servindo de homenagem ao filme Três Homens em Conflito. Por sinal, a própria música que toca nesse momento é uma remixagem do tema do filme do Leone, composta por Ennio Morricone, mas remixada aqui por Roque Banõs, este que já colaborou com Iglesia em outros dos seus filmes.

Então, inicia-se a narrativa normal do longa: Nos dias atuais, Carlos (Luis Castro) é um garoto malcriado que é fascinado pelos cowboys e todos os personagens característicos do velho oeste. Vivendo com sua mãe Laura (Carmen Maura) e sua avó Rocío (Terele Pávez), o garoto não conheceu o pai e, enquanto estava fuçando uma caixa com recordações de sua mãe, encontra uma foto onde está seu pai e outros homens. Quando pergunta à Laura sobre a foto, ela prefere não falar nada, mas acaba dizendo que o pai do garoto era um dublê e morreu de uma forma que ela nunca explicou como. Também na foto, está o avô de Carlos, Julián (Sancho Gracia), que trabalhou no cinema como dublê em filmes do Clint Eastwood no passado e também em Patton: Rebelde ou Herói, de acordo com suas palavras. Persona non grata na família, o senhor Julián continua trabalhando no ramo do espetáculo, ao apresentar a escassos turistas que passam por Alméria, uma encenação, diariamente, sobre o mundo do faroeste, juntamente com seus companheiros.


Carlos, louco para conhecer o avô e visitar a cidade cenográfica chamada de "Texas Hollywood", onde Julián trabalha, fingindo ir para uma excursão da escola, engana a mãe e parte para Almería, utilizando o cartão de crédito dela para pagar o táxi. A partir daí somos apresentados ao grupo bizarro de amigos de Julián, desde o que faz o papel de enforcado (Eduardo Gómez) até o que faz o papel de vilão, chamado de Cheyenne (Ángel de Andrés López). Inicialmente, Julián não se importa com o garoto, mas quando descobre que é seu neto, passa a criar um vínculo de afeto com Carlos a cada dia que passa. Enquanto isso, a bem sucedida Laura procura por seu filho, ao desconfiar que ele tenha ido até Almería e decide comprar Texas Hollywood, com o intuito de fazer um parque temático, só para atrapalhar a vida de Julián e seus amigos.

Interessante que o filme possui três pontos de vista: O de Carlos, o de Julián e o de Laura. O garoto tem aquele espírito sonhador, típico de toda criança e Julián é um sujeito sem maiores objetivos para sua vida, preferindo viver do seu passado e aproveitar ao máximo cada segundo de sua existência, seja com bebidas, mulheres ou a farra com os amigos, representando a paixão pelo que se gosta. Já Laura representa a realidade, não possuindo qualquer sonho em sua vida e demonstra a típica bem sucedida capitalista. Laura nutre um ódio de Julián que aos poucos vai sendo explicado e é muito interessante esse drama familiar dado ao filme. As atuações são magníficas e divertidas, onde o elenco geralmente já tinha contribuído com Iglesia anteriormente.

O título do filme refere-se ao seu clímax, quando, ao saber que pretendem demolir Texas Hollywood para construir um parque temático, Júlian compra 800 balas de verdade para se proteger e só vai sair de lá com luta. O longa ainda tem resquícios de Cinema Paradiso, onde Carlos lembra Toto e Julián o velho Alfredo, em relação à paixão pelo cinema. A trilha sonora foi feita a partir de remixagens de diversos temas clássicos do western, como já citei no início do post, contribuindo ainda mais para a qualidade do filme. As cenas de ação são de respeito, com tiroteios bem coreografados e utilização dos recursos de uma forma econômica e eficaz.

Extremamente divertido e muito bem realizado, 800 Balas é mais um grande e apaixonado filme do Aléx de la Iglesia. Uma comédia sem frescuras e sem medo de ousar, utilizando humor negro, violência e nudez (O diretor sempre chama belas atrizes para participar de seus filmes, aqui representada pela escultural Yoima Valdéz) para contar sua história. Iglesia é autoral e extremamente criativo, mostrando muito de sua marca característica nesse filme. Uma ode ao cinema e uma homenagem verdadeira ao western spaghetti, de uma forma única. Aguardo ansiosamente pelos novos filmes do Iglesia, assim como quero ver os restantes de sua filmografia. Com certeza, deve valer a pena!

OBS: É Clint Eastwood que participa do filme mesmo?

Nota: 8.5/10.0

5 comentários:

Vinícius P. disse...

Pois é. Lembro que você já falou (muito bem) de outros trabalhos do diretor, mas continuo sem ter visto nenhum filme do Aléx de la Iglesia.

•. Cℓєвєя! . - disse...

Nunca ouvi falar!

Hugo disse...

Dele eu assisti o sangrenta "Perdita Durango" e achei diferente, não fez muito o meu gosto.

Este "800 Balas" eu não conhecia.

Abraço

Kamila disse...

O Aléx de La Iglesia é um bom diretor. Conferiria este filme, ainda mais depois do seu texto.

Wally disse...

Repito o que Vinícius escreveu. Preciso conhecer esse diretor.

Ciao!